sexta-feira, 6 de novembro de 2015

PANORAMA FIDA 2015: a alma do FIDA nos cliques de Aline

Aline Nascimento
Foto: Valério Silveira

Ao encerrar esta série de postagens sobre o FIDA 2015, registro aqui o meu agradecimento e o orgulho por ter realizado esta parceria com Aline Nascimento, que deu alma às postagens com suas fotos magistrais. Sem ela e seu talento, este blog certamente passaria batido. 

Aqui deixamos nossas impressões sobre o que o palco do FIDA nos revelou este ano. Eu com as palavras, Aline com as imagens. Contamos histórias, falamos de sensações, da infinita poesia que habita a dança. E adoramos fazê-lo.

Quero agradecer também a Afranio Brito, pela cessão da foto de Karen Mesquita e Cícero Gomes, e à grande colega Norman Delgado, jornalista, pelas fotos da mesa-redonda na Oi. Mais um FIDA se encerra, mas seus efeitos ainda nos inspiram. 

Obrigada a todos e até o Especial FIDA 2016, se Deus quiser!

De mãe para filha: as gerações do ballet, no FIDA e na vida

Aniela (E), filha de Paula Kalif, e Thaissa (D), filha de Tereza de Macêdo:
 dinastia de bailarinas na Cia. de Danças Clara Pinto
Foto: Aline Nascimento


Raiana, filha de Rosana, já se formou, se casou e, no momento, não dança. Josiane, filha de Jacira, também se casou e pensa em voltar a dançar. Isadora, filha de Terezinha, já dançou muito; agora é tradutora e mudou-se para o Rio de Janeiro, mas não perde um só FIDA. Ana Clara, filha de Clara, deixou a dança mas comanda uma das unidades da escola. Aniela, filha de Paula, dança sempre que pode, mas divide o palco com a arquitetura. Thaissa, filha de Tereza, de casamento marcado, permanece ativa na Companhia de Danças Clara Pinto.

Rosana, Terezinha, Paula e Tereza começaram pequenas no ballet; cresceram, floresceram, tornaram-se bailarinas e depois professoras. Assim como Silvia, também. Todas viram o FIDA nascer e nele dançaram por vários anos. Hoje integram uma das mais afinadas equipes de produção que já se viu. Mas o exemplo para as filhas ficou; assim como suas mães, as meninas começaram cedo na Escola Clara Pinto, cresceram, floresceram, tornaram-se bailarinas. Estudaram, escolheram carreiras, casaram, mudaram, mas todas permanecem, de alguma forma, ligadas à dança.

Eloysa também começou pequena, cresceu e entrou para a companhia de danças. Há algum tempo deixou os palcos para assumir os bastidores do FIDA e dar aulas de ballet. O filho Eloy, de dois anos, ainda não decidiu se vai ou não se incorporar à atmosfera, mas presta muita atenção a tudo que acontece no palco. Lorena foi uma refinada solista da companhia. Hoje, advogada e casada, é mãe de João e espera o segundo filho. Amélia, bailarina carismática, casou e foi morar no exterior, mas também marca presença todos os anos ao lado de Tereza, na coordenação de palco.

Thais e Manuela estão na companhia, enquanto Aline, fisioterapeuta e fotógrafa,  não tem mais tempo para dançar, mas pensa em voltar a dar aulas de sapateado.

Na Escola de Danças e na companhia também, os ciclos de talento e criatividade continuam a se repetir. Famílias se formam em torno da arte de dançar. Filhas e filhos crescem com a música certa nos ouvidos e os compassos bem marcados na alma. Só a magia que a dança produz consegue explicar por que todas essas mulheres continuam ali, unidas e determinadas, empenhadíssimas em fazer um belo festival, seja no palco ou nos bastidores.

Do frenesi da preparação aos abraços atrás das cortinas, quando o festival termina, sente-se o brilho nos olhos, a concentração, o entusiasmo em todas essas mulheres, as que dançam e as que fazem a dança acontecer. Sinais de uma força tremenda que as prende na fina malha da arte, e que as faz produzir maravilhas o ano todo, todos os anos, por várias gerações.





PANORAMA FIDA 2015: A mais criativa das codas encerra o festival



Encerramento apoteótico: Karen Mesquita, Erick Gutierrez, Cícero Gomes, Luana Brunetti e Federico Fernández
Foto: Aline Nascimento

Pode-se dizer, parafraseando Peninha na música Sonhos, que "tudo era apenas uma brincadeira que foi crescendo, crescendo...", para contar por que o FIDA é o único festival de dança do Brasil que é encerrado com uma coda de Don Quixote coreografada na hora, a cada ano.

A brincadeira partiu dos bailarinos Cícero Gomes, André Valadão e Federico Fernández, já nem me lembro mais em que ano. Em segredo quase absoluto, todos os bailarinos clássicos que se apresentaram no FIDA se reuniram para criar uma coda extra, inesperada, e surpreender a plateia. O publico, de fato, delirou com aquela conspiração criativa! Pronto, virou tradição. Desde então,  todo mundo fica esperando para ver qual vai ser a nova surpresa.

Cícero Gomes, como sempre, é o cabeça dessa criação colaborativa, que se sofistica a cada ano. Desta vez, o bailarino empolgou como um verdadeiro mestre de cerimônias: sentou na beira do palco, conversou com a plateia, criou clima, incentivou a participação do público. Até se livrou de parte do figurino e se colocou em trajes, digamos, mais confortáveis para a efeméride.

Estreante no FIDA, Erick Gutierrez aderiu instantaneamente à ideia e entrou com o ingrediente que faltava: o sapateado. A grande novidade é que Karen Mesquita resolveu fazer dupla com ele e entrou em cena envergando sapatos com chapinha e um tubinho preto de arrasar! 

Claro que Federico Fernández e Luana Brunetti, outra estreante com louvor, não poderiam ficar de fora: ao exuberante "tac-tac" do sapateado de Erick e Karen, ora em solos, ora em dupla, Cícero, Federico e Luana acrescentaram giros formidáveis, fouetés, manèges e toda sorte de belos movimentos, em combinações inusitadas, que viraram do avesso a música de Ludwig Minkus. 

Acredito que Marius Petipa não se reviraria no túmulo, mas aplaudiria a brincadeira esfuziante, porém fundamentada, que esses adoráveis criativos inventaram para colorir o último dia do FIDA.

Erick Gutierrez e Karen Mesquita: Don Quixote na sola dos pés
Foto: Aline Nascimento

Como todos os anos, o Teatro vem abaixo e a plateia vibra muito, grita muito, curte muito essa descontraída demonstração de carinho que os grandes bailarinos que brilham no FIDA oferecem, na despedida. 

Estas fotos dizem tudo. Agora é esperar pelo ano que vem!

Erick Gutierrez, Cícero Gomes e Karen Mesquita; criatividade e alegria
na coda de encerramento
Foto: Aline nascimento

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

PANORAMA FIDA 2015: "Belém 400 anos" homenageia o carimbó e seu rei, Pinduca

"Belém 400 Anos", com a Cia. de Danças Clara Pinto
Foto: Aline Nascimento

Sou apaixonada pelo projeto Resgate da Cultura Paraense. Sem dúvida uma ideia fantástica: registrar, em movimento, a memória dos grandes artistas do Estado do Pará. E as coreografias estreiam sempre na abertura do FIDA. 

A ideia de criar o projeto foi fruto da colaboração entre três pessoas: o coreógrafo Fábio de Mello, em seu ano de estreia na direção artística do FIDA; Clara Pinto, diretora e criadora do festival; e Gilberto Chaves, diretor do Theatro da Paz. Por coincidência e sorte minha, isso aconteceu em 2003, na primeira vez que participei do FIDA, convidada por Fábio. 

Gilberto Chaves, um grande aficionado da ópera, foi quem sugeriu que os primeiros homenageados fossem dois emblemáticos talentos paraenses: a soprano Maria Helena Coelho Cardoso, contemporânea de Bidu Sayão, e o pianista e compositor Oriano de Almeida. A trilha foi extraída de um disco magnífico, gravado pelos dois e editado pela Secretaria de Cultura do Estado do Pará. Fábio de Mello se empolgou e investiu todo seu talento e criatividade em uma coreografia irretocável, que emocionou fortemente a plateia do FIDA.

Este ano, o projeto homenageou Pinduca, o rei do carimbó. Uma grande festa de cores e de alegria tomou conta do palco do Teatro da Paz. A coreografia de Marcelo Pereira, talentoso criador brasileiro radicado na Suíça, introduziu nuances contemporâneas à malemolência do carimbó original, musicalmente modernizado por Pinduca. 

Em clima de um verdadeiro show, o carimbó entrou em cena triunfante como nunca, entremeado também com a suavidade do lundu, ingrediente que tornou o espetáculo ainda mais atraente. Saias coloridas e sensuais para as meninas com flores no cabelo, roupas brancas de aniagem para os homens. Toda a sedução do carimbó foi representada, mas também o seu lado alegre, de folguedo, de brincadeira gostosa, popular.

Em seu agradecimento, Pinduca observou que, naquele palco, estava acontecendo a vitória do carimbó, depois de anos de proibição e das torrentes de vaias que recebeu pela vida, fatos que nos contou sem tristeza. Muito ao contrário: era a alegria em pessoa ao final da apresentação, reinando no palco ao lado dos bailarinos e de Clara Pinto.

Belém 400 Anos é homenagem feita de dança e alegria, de cuidado e harmonia. Um belo espetáculo que disse a que veio e fez todas as honras possíveis ao Pinduca, rei de fato e de direito.

Pinduca em momento de glória, ao lado dos bailarinos 
e de Clara Pinto, no palco do Teatro da Paz
Foto: Aline Nascimento

































quarta-feira, 4 de novembro de 2015

PANORAMA FIDA 2015: Direto de Fortaleza, o duo "Lado a lado"

Naiane Freitas e Felipe Sousa em "Lado a lado"
Foto: Aline Nascimento


É esta a imagem que se revela no palco do Teatro da Paz, tão logo a luz se acende: duas pessoas atadas. Ou estariam presas numa teia? Pronto, nossa atenção já foi capturada - e ligamos nossas antenas para saber o que vai acontecer daí por diante.

O duo Lado a lado, interpretado por Naiane Freitas e Felipe Sousa, da BCAD Companhia de Dança de Fortaleza, revela um engenhoso jogo de sedução e poder, um campo de disputa habilmente construído pela coreógrafa Atenita Kaira com movimentos aparentemente secos, mas que revelam muita coisa além das aparências.

O deslindar-se dos fios é uma dança de silêncios, quase como um movimento no tabuleiro de xadrez: olhos nos olhos, concentração total, cada um sabendo que o próximo gesto pode abrandar ou complicar tudo. A sensação é que há um subtexto de tensão e embate, mas nada é explícito e sim sugerido. Acompanhamos os movimentos do casal sem elementos para antecipar nada; e o que se desenrola é uma sucessão de jogadas em que movimento, drama, música e técnica nos envolvem num clima de dúvidas, perplexidade e poesia. 

Os bailarinos são perfeitos na condução desse mergulho em profundidade. Logo que começam a se soltar das peias, instala-se uma certa ansiedade: como será o desenlace? Logo a seguir, a surpreendente leveza e fluidez dos movimentos, tanto dos dois quanto do fio em si, revela o domínio absoluto que os bailarinos têm da coreografia e também do drama, ministrado na dose certa para nos instigar e nos atrair ao mesmo tempo. E não perdemos nada, pois é impossível tirar os olhos deles ou do fio. Tudo corre junto no mesmo ritmo, entre vibração e silêncio, quase como a respiração da gente.

Eis que o fio, ao mesmo tempo que foge, enleia - e lá vão os dois na mesma valsa que os separa e que os une. Assim como na vida e na maioria dos relacionamentos, em que o encontro e as diferenças se alternam. Ou convergem para algum lugar ou encontram destinos opostos.

Em Lado a lado, o fio acaba por vencer e novamente envolve o casal, tal como no início. Ainda assim, não sabemos se há de fato um vencedor ou dois vencidos: os olhares permanecem em riste, os corpos rígidos, e o momento seguinte fica para nossa imaginação. 

A simples sugestão, lançada no ar com o final da música, é a alma de Lado a lado, uma obra feita de sutilezas e de competência, tanto da coreografia quanto do desempenho dos bailarinos e da direção precisa, assinada por Janne Ruth.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

PANORAMA FIDA 2015: Mariana Carossa e Kauan Soares

Mariana Carossa e Kauan Soares no pas-de-deux de O Quebra-Nozes
Foto: Aline Nascimento

Mariana Carossa e Kauan Soares são solistas da Companhia Brasileira de Danças Clássicas, de São Paulo. Bailarinos afinados e carismáticos, estrearam no FIDA com obras de repertório, remontadas por Guivalde de Almeida, professor e ensaiador de autoridade e talento reconhecidos nacionalmente. 

Os dois são pessoas encantadoras, descontraídas, que encarnam bem o espírito dos artistas da sua geração. Profissionais concentradíssimos, são rigorosos em sua preparação; nenhum detalhe fica esquecido, das aulas ao aquecimento, dos ensaios ao figurino. Na bagagem, os grand pas-de-deux de O Quebra-Nozes e Diana e Acteon.

Como O Quebra-Nozes veio primeiro, trouxe consigo a primeira impressão, feita de paixão, técnica e apuro. Mariana Carossa tem aquela qualidade etérea que só algumas bailarinas possuem - e que faz com que deslizem, em nossa imaginação, em tons de sépia e lentes algo desfocadas. E que, de certa forma, nos ludibriam: há momentos em que ficamos sem saber se são de fato reais ou visões de algum paraíso da dança.  

Foi assim a sua Rainha das Neves: não deixou espaço para que nos ativéssemos apenas ao rigor técnico. Não, na verdade a aura de encantamento com que nos envolveu a aproxima de mitos nunca vistos, pelo menos por mim. Quem sabe uma Pavlova distante, em algum outro século nem tão distante assim? Sorte que a música, a cena, o teatro, tudo é real - e, em algum momento, a gente volta e percebe que ela existe mesmo. A presença forte e a técnica impecável de Kauan Soares nos ajudam a fazer este ancoramento com a realidade. E a química entre os dois faz com que os personagens ganhem cada vez mais consistência e veracidade.

Interessante vê-los em uma obra tão distinta quanto Diana e Acteon, que requer atributos mais aguerridos, digamos, dada a força dramática exigida dos bailarinos. Mesmo num universo totalmente diferente do anterior, percebe-se que a química é a mesma, porém acrescida de novas nuances - de maior entrega e capacidade, técnica e dramática, para assumir e correr riscos maiores. O resultado é uma atuação memorável, que só nos faz ter vontade de aplaudi-los cada vez mais, orgulhosos e felizes diante de tanto talento.

PANORAMA FIDA 2015: Oficina de ballet clássico com Toshie Kobayashi

Oficina de Toshie Kobayashi - Ballet clássico
Foto: Aline Nascimento

Tenho uma gratidão manifesta pela Profa. Toshie Kobayashi desde o meu primeiro FIDA, em 2003. Quando, no domingo final, vi o palco do Teatro da Paz ser tomado por centenas de meninas lindas, de várias idades, todas iguaizinhas, vestidas de preto com tutu romântico impecável, coques arrumadíssimos, sapatilhas muito bem atadas, como manda o figurino, fui invadida por lágrimas. Aquela simples visão fazia valer a pena todas as lutas da gente para manter viva a chama do ballet. 

Naquela época eu e meu grande parceiro Antonio Bento, bailarino e coreógrafo, lutávamos arduamente para segurar uma frágil e delicada companhia de dança em minha cidade natal, Barra Mansa. A visão das meninas foi uma grande emoção que guardei comigo e confessei à Profa. Toshie, que com os anos vim a conhecer melhor no FIDA. 

Com sua simpatia e rigor típicos da herança cultural japonesa, aliados a uma disposição inesgotável para transmitir sua arte, Toshie Kobayashi é queridíssima pelas bailarinas ou aspirantes a bailarinas de Belém. Estou certa de que isso acontece onde quer que ela vá. Esse encantamento explica facilmente as 120 alunas que se inscreveram este ano para participar de sua oficina no FIDA. - Cento e vinte! - nos contava ela, animada, logo no segundo dia. 

No domingo, fez-se novamente a mágica: sílfides e mais sílfides tomaram o palco do Teatro da Paz, numa organização irretocável e absolutamente idênticas, para executar a coreografia elegante e básica de um grand défilé de encher a alma. 

Um resultado final que reflete ensinamentos inestimáveis sobre a beleza e a perfeição que tornam sublime a arte do ballet, e que todas essas meninas, tornem-se ou não bailarinas, levarão consigo para a vida inteira. 

Por isso, a emoção de ver no palco as meninas da Profa. Toshie se renova sempre.


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

PANORAMA FIDA 2015 - Oficina de Kiko Guarabyra and all that jazz

Oficina de jazz: coreografia exuberante de Kiko Guarabyra
Foto: Aline Nascimento


- Kiko, você é o único bailarino que conheço que pode continuar o meu trabalho.

A declaração do lendário e inesquecível Lennie Dale, bailarino e coreógrafo norte-americano que escolheu viver no Brasil e aqui fez uma inigualável escola na linguagem do jazz, tornou Kiko Guarabyra o herdeiro legítimo de uma vertente sem paralelo na esfera do jazz-dance e dos musicais.

Em sua estreia nas oficinas do FIDA, Kiko se deparou com mais de 80 alunos. Como reza a tradição do festival, as coreografias montadas nas oficinas são exibidas no domingo, último dia de apresentações. Quando o trabalho de Kiko surgiu no palco, dava a impressão de que havia, assim por baixo, umas 150 pessoas. E desde o preto-e-branco dos figurinos à postura profissional dos participantes, uma só tônica marcou a apresentação: o estilo.

Na melhor tradição jazzística, Kiko teve nas nuances de ritmo o seu maior trunfo para amplificar a atuação do grupo e solucionar eventuais desigualdades, que certamente não chegaram ao palco. Numa improvável conjugação de crianças pequenas, jovens bailarinos e adultos, Kiko chegou a uma equação muito sofisticada e musical, aproveitando até o talo as possibilidades da música escolhida - Le Jazz Hot, gravada por nove entre dez estrelas dos musicais da Broadway, como Shirley McLaine e Liza Minelli - e transformando as possíveis diferenças em coreografias com rara unidade. Houve espaço de sobra, também, para a expressão dos talentos individuais, em situações que Kiko soube esculpir como ninguém, escolhendo a dedo os protagonistas. 

A entrada coletiva e espirituosa das crianças, com movimentos lúdicos que aludem às célebres pin-ups, abre caminho para uma sucessão de cenas de maior apuro técnico, para terminar numa verdadeira apoteose do jazz. O volume de bailarinos no palco vai crescendo, crescendo, até o movimento se abrir para que o centro da cena seja ocupado pelos solistas. Dá-se então um clima recheado de pequenas surpresas aqui e ali; a plateia vibra, o som sobe... e os bailarinos, estes sim, esbanjam felicidade, como se vê na foto, nos momentos finais da apresentação.

Em suma, Kiko Guarabyra, honrando o mestre, respondeu com festa ao desafio da oficina, para felicidade de quem dançou e de quem assistiu!

PANORAMA FIDA 2015: "Mamma Mia, o musical", coreografia de Fábio de Mello

Oficina de Fábio de Mello: coreografia "Mamma Mia, o musical"
Foto: Aline Nascimento

Fábio de Mello, artista maior em todos os formatos, apresentou no último domingo do FIDA 2015 o resultado de sua oficina "Musicais da Broadway". A foto, contudo, nos convenceria facilmente que estamos diante do encerramento de mais uma noite de um grande espetáculo em plena temporada.

A tradicional apresentação das oficinas sempre nos surpreende com momentos de alegria, mas este ano foi demais. "Mamma Mia" encheu o palco com alunos, mas ninguém percebeu isso: para todos os efeitos, ali estava um elenco com meses de ensaios, quando a preparação durou apenas três dias e os figurinos foram criação dos próprios bailarinos.

Sempre achei que Fábio de Mello, ao nascer, foi dotado de um "dedo de Midas" imaginário, que transforma tudo que toca em ouro - ouro de beleza, de criatividade, de clima, de ritmo, de apoteose. Tem sido assim em todos os seus principais trabalhos, alguns dos quais tive a honra de assistir em diversos palcos. No FIDA, além das obras que criou para o projeto "Resgate da Cultura Paraense", apresentou também sua montagem de Carmen e, com a companhia de Bete Spinelli, Lupi e Zorba, duas pequenas joias - a primeira em homenagem a Lupicínio Rodrigues e a segunda, uma recriação contemporânea de Zorba, o Grego, protagonizada por Marcelo Misailidis. Isso sem falar na Medea criada especialmente para a bailarina Sandra Queiroz.

Artesão da precisão, Fábio comandou com mestria a trupe de bailarinos numa coreografia descontraída, de ciclos marcados e grande energia. E não faltou a nenhum integrante o brilho nos olhos, o sorriso sincero e a alegria de viver necessários a tornar "Mamma Mia" uma apresentação tocante e contagiante ao mesmo tempo, que fez do palco do Teatro da Paz uma Broadway particular, para felicidade de todos nós.

PANORAMA FIDA 2015: Luana Brunetti e Federico Fernández

Luana Brunetti e Federico Fernandez no pas-de-deux de O lago dos cisnes
Foto: Aline Nascimento


Um cisne argentino em águas paraenses: Luana Brunetti, que integra o time de primeiras-bailarinas do Teatro Colón de Buenos Aires, fez sua estreia no FIDA ao lado de Federico Fernández, também primeiro-bailarino do Colón, que podemos considerar um veterano no palco do Teatro da Paz, já que está no elenco dos convidados do Festival há vários anos. 

E que estreia. Suas linhas suaves, aliadas a uma insuspeitada força dramática e técnica excepcional, emocionaram sempre, mas sobretudo na interpretação do pas-de-deux do cisne branco, do ballet O lago dos cisnes. Foi cruzar o palco e já disse a que veio. intensa na interpretação, concentrada na execução, Luana brilhou ao revelar a dor da personagem Odette, perdida entre dois mundos e irremediavelmente presa ao amor pelo príncipe Siegfried.

A dupla tem química: Federico, que revela uma crescente maturidade nos papéis dramáticos, foi perfeito ao encarnar Siegfried, ele próprio também perdido entre tantas encruzilhadas, antes de se apaixonar por Odette. Mas Luana cria penas, agita quase desfalecida as frágeis asas, frágeis como as chances da personagem de vencer o trágico destino e conquistar a redenção do amor. Rebela-se, ainda que quase sem forças, ainda que saiba que é inútil. É da grandeza do cisne que emanam as nuances mais marcantes da interpretação de Luana Brunetti.

Com música particularmente tocante, o pas-de-deux nos mergulha na intimidade do casal de amantes. E vemos uma Luana totalmente entregue ao personagem Odette, consternada e retraída, reunindo as últimas forças do cisne para aproveitar ao máximo aqueles momentos tão cruciais ao lado do amado. 

Em sua imensa, irremediável tristeza, o cisne de Luana nos hipnotiza e comove. E Federico, na pele do príncipe Siegfried, representa o contraponto ideal.

A dupla dançou também, e com sucesso, os pas-de-deux de O Corsário e de O Quebra-Nozes
Mas como esquecer aquele cisne? 


sábado, 31 de outubro de 2015

PANORAMA FIDA 2015: Ana Botafogo e Carlinhos de Jesus

Ana Botafogo e Carlinhos de Jesus em Divina Dama
Foto: Aline Nascimento
Não sei precisar em que momento se deu o encontro artístico entre Ana Botafogo e Carlinhos de Jesus. Mas o fato é que vingou, frutificou e é sempre um deleite para todos os públicos.

É verdade que Ana imortalizou o Tico-tico no fubá nas pontas e inaugurou um acesso inusitado, porém riquíssimo, entre as linhas clássicas e o ritmo do samba.  Depois, o espetáculo Isto é Brasil, idealizado por Carlinhos, ampliou as harmonias entre clássico e popular: Ana brilhou em todos os tons da nossa música, com toda sua técnica de braço dado com o samba. 

Neste FIDA tivemos a chance de ver a dupla dar um passo além: em Fascinação, todos os movimentos de Ana Botafogo são absolutamente clássicos, enquanto Carlinhos de Jesus, como um soberbo consorte, evolui na técnica que o consagrou. Os dois artistas conseguiram um perfeito casamento coreográfico que resultou em leveza, beleza, emoção geral. 

A dupla fechou a noite com o esplêndido Divina Dama, já um clássico em que não faltam química, clima e elegância. E o palco do FIDA virou um imenso salão de baile onde os dois príncipes da nossa dança nos fizeram, mais uma vez, sonhar.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

PANORAMA FIDA 2015: Grupo Nataraja

Nataraja no FIDA 2015
Foto: Aline Nascimento

Nataraja é um dos nomes do deus indiano Shiva, e significa "o rei da dança". Nessa configuração, Shiva é representado como o dançarino cósmico, que apresenta sua dança divina para destruir o que for necessário no universo e, assim, poder fazer a preparação para o Deus Brahma começar o processo de criação.

Pois foi este nome que um grupo de dança devocional de Belém escolheu para chegar a nós mortais com a beleza das danças de Shiva e nos tocar com um sopro do divino. 

Pode ser que eu seja suspeita para falar. O fato é que desde 2003, ano do meu primeiro FIDA, sempre me emociono e me impressiono com a qualidade do trabalho desse grupo singular, que não se parece com nada que conhecia até então, ou que tenha conhecido depois dele.

O apuro nos figurinos e adereços, na pintura do corpo, na escolha e interpretação das músicas, nas coreografias complexas e ao mesmo tempo delicadas, é algo muito difícil de descrever. Em cena, o Nataraja nos convida à introspecção. Parece que até a respiração dá um tempo, para que não se perca um só detalhe da evolução do grupo. Os integrantes são disciplinados bailarinos que realizam uma verdadeira oferenda coreográfica aos deuses, sem deixar de lado um só detalhe, sem cometer um deslize, sempre deslumbrantes em cena. Trazem sua verdade e a oferecem a todos nós, num ato de arte que é doação, é oração, é puro talento.

O Nataraja se apresenta todos os anos no FIDA e a beleza é sempre nova, grandiosa. Para mim, sua participação é sempre um grande momento - aquele instante em que se abre efetivamente um canal para uma energia mais qualificada, depurada, para um contato mais íntimo com um espaço interior de transcendência espiritual e estética. 

Dessa forma suave, firme e artisticamente consistente, o Nataraja segue enobrecendo a arte com um trabalho único e particularmente tocante. Concentro-me então e envio a Shiva, o rei da dança, meus sinceros votos de que o Nataraja possa levar sua dança a todos os palcos possíveis deste Brasil. 

E então, Shiva? Vamos providenciar?

PANORAMA FIDA 2015 - Douglas Motta

Douglas Motta em Volare
Foto: Aline Nascimento 

Comunicação imediata com a plateia, naturalidade, charme e muita dança: tudo isso é Douglas Motta, bailarino convidado que trouxe diretamente de Fortaleza para o FIDA uma graça e uma malemolência absolutamente cativantes.

Aos primeiros acordes do grupo Gipsy Kings, dá para pensar que ganhamos ingressos para uma deliciosa viagem no tempo. Mas que nada! A conhecida versão do grupo para a canção Volare, de Domenico Modugno, sucesso da década de 1960, ganha um tom renovadíssimo na criação e na interpretação de Douglas Motta.

Em tom despojado, Douglas surge no palco bem ao fundo, quase que por uma vereda, como se estivesse oculto por uma dobra da cortina. Num passeio elegante que oscila entre a dança e o molejo, ganha o centro do palco e protagoniza o toque de galanteria em forma de homenagem que ninguém esperava: Clara Pinto surge da coxia, envergando um chapéu preto que transfere para o bailarino, após ter a mão beijada no melhor estilo cavalheiresco.

Com a tranquilidade de quem faz da cena a  sua casa, Douglas Motta explode em alegria nos pés, brincando de dançar, feliz de verdade, no estribilho da canção. Volare! O-ho! Cantare! O-ho ho ho! Todos se rendem instantaneamente a essa sedução do ritmo, do olhar brilhante, do sorriso largo que impregna o corpo de uma euforia irresistível. 

Mas o showman Douglas Motta não fica só nisso: incorpora ao clima esfuziante da canção uma série de elementos do ballet clássico, entre equilíbrios, saltos, giros e outras façanhas particularmente elaboradas. 

O resultado é não só limpo como musical, contagiante, envolvente.

Em uma palavra: é show!
 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

PANORAMA FIDA 2015 - Laura Ávila

Laura Ávila no solo Bach
Foto: Aline Nascimento


O que seria de um festival de dança como o FIDA sem as surpresas de cada ano? Pois Laura Ávila está entre elas. A bailarina contemporânea de formação clássica emprestou suas linhas impecáveis e um raro talento dramático a solos criados por Gleidson Vigne, que capturaram de vez a plateia.

Na noite de sexta, estreou com Zabé, uma homenagem a Zabé da Loca, artista popular que toca o pífano com perfeição; foi descoberta aos 79 anos e hoje, aos 91, faz shows no Brasil inteiro. Nascida em Buíque, no Cariri Pernambucano, Zabé da Loca ("loca" é a gruta onde morou por 25 anos) inspirou a trilha eleita por Laura e Gleidson Vigne para compor seu solo, que começa ao som da voz da própria Zabé. 

Muitos artistas  escolhem dançar ao som de textos, mas o caso de Laura é diferente. A fala de Zabé é contundente e a artista soube pontuá-la com desconstruções delicadas, que têm um fio condutor no corpo. Logo depois a música vem e conduz o movimento - ou será que os rege? -, mergulhando a plateia numa aventura poética no sertão, corpo afora, dança adentro.

Laura Ávila trabalha a intensidade dos movimentos sem nunca esquecer a elegância necessária para que a beleza não a abandone. Em Bach, o segundo solo que apresentou no FIDA, usa a luz, o sentimento e as formas para nos embalar num ambiente de impressões etéreas, numa estética que lembra os tons da pintura de El Greco, em alguns momentos.

É raro a gente ver o ballet contemporâneo tão bem representado, com todos os seus elementos estéticos genuínos no cardápio. E o que é melhor: incorporando a cultura brasileira sem cair em banalidades.

Ave Laura Ávila.





segunda-feira, 26 de outubro de 2015

PANORAMA FIDA 2015 - Erick Gutierrez

Erick Gutierrez em Improviso Poético
Foto: Aline Nascimento

Um corte de contra-luz é tudo que atravessa o palco, como se fosse um reflexo de chuva sobre o linóleo, e não propriamente luz. 
É apenas a primeira chave para uma composição surpreendente, que de cara nos descontamina de toda e qualquer ideia prévia do que seja sapateado.
O título do solo de Erick Gutierrez, Improviso Poético, nada tem de acidental: é de uma literalidade que não adivinhamos até o artista se enunciar na tênue trilha de luz, com seus movimentos de extrema delicadeza, densidade e técnica. 
Como alguns dos mais sutis mímicos de antigamente, Erick usa o corpo com absoluta precisão para escrever histórias no ar, sugerir sentidos, riscar sobre o nada objetos imaginários, como se desenhasse a coreografia, a cada instante, sobre o próprio papel da pauta da música. Somos então hipnotizados por uma poética visceral que impressiona justamente por seu caráter de suavidade, por nos convidar a imaginar o poema enquanto o corpo revela os movimentos à sua maneira - ora se atirando no ar para deslizar sobre a luz, ora abrindo brechas imprevisíveis com vigor, ora descortinando um arco de violino, entre o drama e a ternura, sempre à beira do despenhadeiro.
E de repente, só de repente, é que os ouvidos da gente se lembram de que o sapateado está presente o tempo todo, como uma camada de sonoridade que se adiciona à música sem feri-la e a faz ecoar por uma espécie de irradiação mágica. 
E o poema, incorporado, nos toma por inteiro.
Black out. 

PANORAMA FIDA 2015 - Aline Nascimento, das sapatilhas às lentes

Aline Nascimento é bailarina e, como tal, conhece de longe a ciência de realizar um movimento perfeito, um passo correto. Quesito, aliás, bastante importante para exercer plenamente o mais novo talento que descobriu: fotografar ballet, entre outras coisas.
Na hora de enquadrar movimentos, expressões, ritmo, sua disciplina na dança faz toda a diferença - e o resultado são fotos brilhantes, imagens de grande força, que brincam com a luz e transformam detalhes em essência.
Aline Nascimento acaba de registrar o FIDA 2015. É um material de rara beleza e percepção, que a artista coloca à disposição do nosso blog,
Começamos com um dos belos cliques de Aline durante o Improviso Poético, solo encenado por Erick Gutierrez, bailarino, sapateador e professor convidado do FIDA.
Fique atento ao Panorama  FIDA 2015, que certamente trará muitas belas fotos assinadas por Aline Nascimento.

PANORAMA FIDA 2015 - Karen Mesquita e Cícero Gomes

Karen Mesquita e Cícero Gomes em "Águas Primaveris"
Foto: Afranio Brito


Na noite de sexta, 23 de outubro, os convidados Karen Mesquita e Cícero Gomes, ambos primeiros solistas do Theatro Municipal do Rio, ofereceram a Belém algo incomum: o pas-de-deux "Águas Primaveris", criado por Assaf Messerer. De execução tida como dificílima, é uma obra lendária de repertório, com música de Rachmaninoff. É uma criação específica que não faz parte de nenhum ballet completo, mas que ganhou fama devido às suas singularidades.

Karen e Cícero, grandes expoentes da nova geração de bailarinos brasileiros, já são conhecidos do público em Belém. Mas que ninguém se engane: cada vez que dançam é única. Quem tem a oportunidade de vê-los dançar deve respirar fundo e ficar atento, pois está diante da história no momento em que acontece.

Já vestidos, se aquecem ao lado da coxia; mesmo concentrados, não deixam de dar uma atenção, de sorrir e interagir. - Resolvemos fazer Águas porque é diferente, ainda não dançamos aqui. É bom trazer uma coisa nova - diz Karen Mesquita. - Pena que é tão rápido que, quando a gente vê, já acabou - brinca. Cícero Gomes concorda, com sorriso e olhar marotos, quase brincalhões. Dá gosto vê-los, dentro ou fora de cena; é uma novíssima geração sem máscara, sem vaidade ou soberba. Gente como a gente, que se distinguem na esfera do talento, mas que comem, dormem, brincam e choram como qualquer um de nós.

O que Karen Mesquita chama de "rapidinho" pode até ser curto no tempo medido, mas é enorme enquanto se desenrola aos nossos olhos, com uma limpeza absoluta nos movimentos e com a paixão que caracteriza as interpretações da dupla. Tecnicamente? Irrespirável. Em termos de sentimento, é mesmo como um vento de primavera carregado de folhas que dançam, com mil passarinhos multicores atrás. E os dois sorrindo, felizes em sua plenitude.

Quem viu não tem a menor chance de esquecer. É história. É arte. É um sopro de vida que corre pelas veias da gente. 

Viva eles. Que muitas Águas possam rolar,  no Teatro da Paz e em muitos palcos do mundo, com esses dois. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

FIDA EM DESTAQUE NO AUDITÓRIO DA OI

Reportagem de Maurette Brandt (texto) e Norman Delgado (fotos)





Clara Pinto abre a mesa-redonda no Auditório da Oi, em Belém
Foto: Norman Delgado (Notícias da Dança)


Carlinhos de Jesus lembra do casal de irmãos de Belém que vendeu tudo e bateu no Rio depois da promessa de uma bolsa em sua academia de dança. Após serem acolhidos pelo artista, tornaram-se grandes bailarinos de sua companhia. Hoje, um deles está na Alemanha.
Ana Botafogo recorda que um dos primeiros convites que recebeu para dançar como bailarina profissional, antes mesmo de integrar a companhia do Theatro Municipal do Rio, partiu de Clara Pinto - que fez parte da história de Pinduca, o rei do carimbó, homenageado no Fida 2015.
Andrea Rodrigues viaja sete horas de lancha com seus bailarinos, desde Altamira, para conseguir pegar um avião e chegar a Belém para participar do Fida, todos os anos.
Depoimentos emocionados, histórias de vida, relatos compartilhados. Foi desta matéria, humana e forte, que se fez a mesa-redonda realizada no Auditório da Oi, em Belém, na sexta-feira, 23 de outubro, para falar do Festival Internacional de Dança da Amazônia, patrocinado pela operadora. A conversa informal, quase confessional em alguns momentos, trouxe à baila a importância de estimular a cultura no Estado do Pará e incentivar, por meio do Fida, a troca de informações e influências entre bailarinos de todas as partes do Brasil e também de outros países.


Mediada por Clara Pinto - criadora do FIDA, bailarina, professora que introduziu em Belém o método do Royal Ballet de Londres, ex-Miss Pará e Rainha dos Artistas  - a mesa-redonda reuniu uma seleta audiência de personalidades e pessoas comuns, todos envolvidos de alguma maneira com o Festival Internacional de Dança da Amazônia. Presentes o diretor da Oi em Belém, José Stelio, e o diretor da Oi Futuro, Roberto Guimarães, que veio conhecer de perto o festival. O objetivo do encontro foi ouvir e contar, registrar e reforçar as marcas que o Fida, em sua trajetória de 22 anos, vem deixando na memória cultural da cidade e da região - e na memória afetiva de muitas das pessoas presentes.

- Agradeço aqui ao Dr. Roberto Guimarães, da Oi Futuro, e ao Dr. Stélio, da Oi Pará, por estarmos realizando este encontro - disse Clara Pinto, ao abrir a mesa-redonda que contou com a presença de artistas, como a primeira-bailarina Ana Botafogo, o bailarino Carlinhos de Jesus e o rei do carimbó Pinduca, além da Presidente do Conselho Brasileiro da Dança, Gisela Vaz. - Temos também vários convidados - pessoas que fazem parte da trajetória do Fida. São professores, representantes de escolas e amigos do Fida, cujas histórias se entrelaçam com a nossa. Vou começar aqui pelo Carlinhos; quero saber, na sua opinião, qual a importância do Fida.


Abrindo um largo sorriso, Carlinhos de Jesus  rememorou seu percurso artístico e a carreira em pedagogia que viveu em paralelo até chegar à "bifurcação", em suas palavras, que o levou a optar pela dança.



Carlinhos de Jesus e Gisela Vaz durante a mesa-redonda
Foto: Norman Delgado (Notícias da Dança)

- Eu participo da vida cultural de Belém com a Clara Pinto muito antes do primeiro Fida - conta. - E foi aqui, nas apresentações e na famosa Matinê, também um projeto da Clara, que eu aprendi mesmo a me reconhecer como profissional e a entender que a dança de salão podia ser trabalhada profissionalmente mesmo. Foi o acolhimento da Clara e o carinho das pessoas em Belém que me ajudaram a  descobrir o verdadeiro caminho para minha carreira.

Entre as muitas brincadeiras, Carlinhos lembrou que "detestava açaí", mas que em Belém começou a provar (mesmo detestando) o açaí puro. - De tanto provar, acabei gostando e hoje sou fã - conta. - Tenho que encontrar um açaí me esperando no frigobar do hotel, senão fico muito contrariado - sorri.

Tomando sua própria carreira como exemplo, Carlinhos ressaltou a importância dos patrocínios culturais para movimentar a cena da cultura. - Até mudei o meu celular pra Oi quando cheguei aqui - sorriu o artista, parabenizando a Oi pela sensibilidade em apoiar o Fida, reconhecendo seu valor como ação cultural de alta relevância.




Ana Botafogo e Clara Pinto
Foto: Norman Delgado (Notícias da Dança)


Ana Botafogo também começou a dançar em Belém, sempre a convite de Clara Pinto, no início de sua carreira. - Mesmo antes do Fida e antes de eu entrar para o Teatro Municipal, dançava aqui. Depois veio o Fida e eu vim a quase todos. Só não vinha quando a agenda não permitia mesmo. E como já dancei todo o meu repertório de ballet na cidade, eu e o Carlinhos criamos uma nova coreografia especialmente para o Fida 2015, que vamos dançar no sábado - antecipa.
Pinduca foi o terceiro a falar, ainda sob o forte impacto do espetáculo "Pinduca e o Carimbó", apresentado na abertura do festival, que homenageou o cantor e compositor dentro do projeto Resgate da Cultura Paraense, com coreografia assinada por Marcelo Pereira, artista brasileiro radicado na Suíça.
- Eu fui tão vaiado quando comecei a modernizar o carimbó que as vaias acabaram por me estimular - brincou. - Quando vi a surpresa que a Clara Pinto me preparou, virei para o público e disse: - Vocês estão vendo o que está acontecendo aqui hoje? O carimbó está sendo  reconhecido de verdade! Depois que a gravadora Copacabana, em São Paulo, acreditou e investiu em mim, tenho recebido várias homenagens, até comendas, inclusive no exterior. Mas nada foi tão forte quanto ver o carimbó transformado em espetáculo e dançado no palco do Teatro da Paz! - emocionou-se Pinduca.
Gisela Vaz ressaltou o orgulho que o Conselho Brasileiro da Dança tem em ter Clara Pinto como sua delegada regional, por seu pioneirismo e ousadia ao realizar o Fida. - Sem dúvida é um dos grandes festivais de dança deste país - afirmou.



Pinduca 
Foto: Norman Delgado (Notícias da Dança)


O professor e coreógrafo Guivalde Almeida, de São Paulo, falou sobre a importância das trocas culturais proporcionadas pelo Fida. - A gente vem aqui e vê a dança que está acontecendo nessa região, com toda sua riqueza: temas indígenas, temas da natureza, muita coisa mesmo. O crescimento, aí, tem duas mãos: a gente aprende com os criadores daqui e eles também aprendem conosco. Essa contribuição mútua tem levado a grandes avanços, que só um festival como o Fida pode proporcionar - diz.
Em seguida Roberto Guimarães, diretor do Oi Futuro - instituto que gerencia os patrocínios culturais da operadora - apresentou-se a todos.Com formação de jornalista e também de ator, tem grande entusiasmo pelo trabalho que a Oi desenvolve na área da cultura, através do Oi Futuro, com destaque para os festivais.
- Gostamos muito de patrocinar festivais porque consideramos que são excelentes oportunidades de troca, e em grande intensidade. Procuramos estar próximos dos patrocinados e apreciamos demais o retorno que recebemos, pois os resultados é que fazem valer a pena. E não tem nenhuma interferência do marketing não, o conteúdo dos projetos fica inteiramente a critério dos patrocinados.
Ressaltando a dificuldade de marcar presença em todos os eventos que patrocina, dadas as dimensões continentais do país, Roberto Rodrigues disse estar curioso para conhecer o âmago do Fida.
- Vou lá conferir, e não com espírito de "avaliar", mas de aprender e também prestigiar o trabalho do Festival - conta.

Clara Pinto gentilmente solicitou também a minha opinião, já que, como jornalista, acompanho o Fida desde 2003. Senti-me muito à-vontade para falar de minha relação com o festival, ao qual cheguei pelas mãos do coreógrafo Fábio de Mello, meu amigo pessoal. Resolvi acompanhá-lo em seu primeiro ano como coreógrafo e diretor artístico do Fida. O que seria apenas uma viagem de férias transformou-se numa sólida ligação de amizade e admiração com o evento e com Clara Pinto. Naquele ano, escrevi espontaneamente duas matérias que foram publicadas no jornal O Liberal, como colaboração, sem assinatura. O material, que refletia todo meu entusiasmo por encontrar tanta riqueza cultural nessa terra, acabou repercutindo bem. De todos os múltiplos legados do festival, destaquei o fato de o Fida, pelas mãos de Clara Pinto, ser responsável por um fluxo regular de trabalho para muitos artistas de todo o país e do exterior, o que possibilita infinitas trocas em todos os sentidos.



Ana Rosa Crispiniano
Foto: Norman Delgado (Notícias da Dança)


Mais vozes, porém, viriam acrescentar emoção ao encontro. Ana Rosa Crispiniano, ex-aluna e colaboradora de Clara Pinto, agora participa com sua própria escola. - É um orgulho e um prazer estar no Fida, levar meus alunos, eu que fui também aluna e até trabalhei na produção - conta. - Tudo que sei, com certeza, aprendi com Clara Pinto - diz.
A bailarina Marieta, que representa o Grupo Nataraja, de danças devocionais indianas, disse que o Fida foi o único festival que abriu espaço para o grupo mostrar seu trabalho. - Nos outros lugares não havia lugar para aquele tipo específico de dança que nós fazemos, e com o Fida tivemos essa oportunidade de  mostrar nosso trabalho.
Uma jovem dançarina de sapateado, presente na plateia, diz que espera o Fida o ano inteiro. - É o único festival que  traz a Belém os grandes sapateadores - anima-se. - Sem o Fida, não teríamos isso.



Andrea Rodrigues
Foto: Norman Delgado (Notícias da Dança)


Andrea Rodrigues é professora de ballet em Altamira, a 1.200 km da capital paraense. Com um sorriso franco e contagiante, Andrea vibra ao relatar a longa colaboração com Clara Pinto e as transformações que disso decorreram. - Falo em nome de centenas de crianças que tiveram suas vidas transformadas pelo ballet. No início eu pedi: - Professora Clara, venha me ajudar. E ela foi, de barco (são sete horas de viagem e mais estrada), ensinar todo mundo com o máximo carinho. Sem ela, não estaríamos aqui. Hoje chego a Belém com os alunos e muitos deles jamais pisaram num teatro. Querem conhecer tudo, perguntam tudo, a luz, o lustre, as pinturas, onde é que acende e apaga. Isso muda tudo no mundo deles, pois aqui, no Teatro da Paz, eles conseguem enxergar possibilidades. - Peço que a Oi sempre patrocine o Fida, para que essas crianças que vêm com tanto sacrifício continuem a ter isso - emocionou-se.

Colaboradora da Oi e ex-aluna de Clara Pinto, Jane Susy foi quem fechou com chave de ouro, na opinião de Roberto Rodrigues, a mesa-redonda.
- Todo ano fico atentíssima ao sorteio dos ingressos do Fida, mas este ano me enrolei e fiquei sem. Por sorte um colega que tinha ingressos mas não poderia ir, me deu os dele. Meu Deus, nem acreditei - conta. - Imediatamente liguei para minha mãe, pois o Fida é o único evento em que ela vai. Disse: "Mamãe, vamos nos arrumar muito, para a gente ver a Clara Pinto sempre produzida, recebendo os convidados." Eu adoro o Fida, aprendo muito sempre e estou ansiosa para ver este ano - disse.

- Depois de um depoimento de  uma colaboradora da Oi e ex-aluna da Escola Clara Pinto, o que mai se pode dizer? - resignou-se, com  um sorriso, o diretor Roberto Guimarães, ao encerrar o encontro.



Mesa-redonda do Fida no Auditório da Oi: clima de alegria e descontração
Carlinhos de Jesus, Gisela Vaz, Roberto Rodrigues, Clara Pinto, Ana Botafogo e Guivalde Almeida
Foto: Norman Delgado (Notícias da Dança)